O lançamento do ITIL (versão 5), de certa forma repentina, é ao mesmo tempo ousado e inevitável.
Em sua nova versão, o ITIL traz uma proposta clara: integrar gestão de serviços e gestão de produtos em um ciclo de vida único. Com isso, o framework deixa de se posicionar apenas como ITSM (IT Service Management) e passa a flertar com algo mais amplo, o DPSM (Digital Product and Service Management).
Esse movimento é ousado porque tenta incorporar product management, uma área de conhecimento (e um grupo de profissionais) que historicamente sempre orbitou em um mundo paralelo ao do ITSM.
Não por diferença de propósito, já que ambos buscam entregar valor, mas pelas abordagens, modelos mentais e formas de trabalho.
Profissionais de product management, em sua grande maioria, nunca ouviram falar de ITIL. E, quando ouviram, dificilmente se interessaram. Esse público já tem seus próprios gurus (Marty Cagan, Teresa Torres, entre outros), suas referências e sua própria linguagem.
Isso me leva a uma reflexão incômoda: será que o ITIL 5 vai, na prática, aproximar profissionais de ITSM do mundo de produtos, em vez de atrair profissionais de produtos para o framework ITIL?
Ao mesmo tempo, é difícil enxergar outra alternativa viável se a intenção for tentar resgatar o prestígio que o ITIL já teve no passado.
Como já escrevi aqui no blog anteriormente, o ITIL vem sofrendo pressão dentro do próprio território onde reinou por anos. E, embora eu continue acreditando que o ITIL, enquanto referência de boas práticas, seguirá relevante, ignorar os sinais seria um erro.
O gráfico abaixo mostra o interesse pelo termo ITIL desde 2004:

Isso representa uma queda de 75% a 80% no interesse de busca em comparação ao seu momento de glória.
Ao observar os últimos três meses com mais atenção, percebe-se que nem mesmo o anúncio do ITIL versão 5 foi capaz de alterar significativamente a tendência de busca pelo tema. O termo saiu do mainstream (onde todos falavam sobre isso) e se tornou um assunto de nicho.

A chamada “era de ouro” do ITIL durou até meados de 2007–2008, muito provavelmente impulsionada pelo lançamento do ITIL v3. A partir de 2010, o framework passou a experimentar um desgaste gradual.
Esse desgaste até foi parcialmente contido, mas se manteve em um patamar baixo — mesmo após o lançamento do ITIL 4, em 2019.
O ITIL ficou, de certa forma, em um longo ostracismo por quase 12 anos após a V3. E nesse intervalo, o mundo mudou profundamente.
Mudaram os padrões de consumo (menos bens, mais serviços e experiências), surgiram novos modelos de negócio (Anything as a Service), novas abordagens de gestão (DevOps, Scrum, SRE) e inovações tecnológicas relevantes (cloud computing, machine learning, entre outras).
Esse período cobrou um preço alto. Muitos profissionais simplesmente abandonaram o ITIL, migrando para práticas consideradas mais modernas e mais conectadas com a realidade do dia a dia.
O lançamento do ITIL 4, em 2019, tentou recuperar esse espaço, incorporando conceitos contemporâneos ao framework. O problema é que o nível de abstração foi tão elevado que uma parcela significativa dos praticantes históricos do ITIL não se sentiu reconectada.
Sob a ótica de negócio, isso é um baita problema.
Desde que o ITIL se tornou propriedade de uma empresa privada (Axelos) e, posteriormente, foi adquirido pela PeopleCert, ele passou a ser o principal produto de um grupo cujo modelo de negócio é desenvolver e comercializar estruturas globais de boas práticas e certificações.
E é exatamente aqui que reside a inevitabilidade do ITIL 5:
a necessidade de adaptar o produto ITIL às mudanças do ambiente de negócios, aos frameworks emergentes (que também disputam atenção, relevância e orçamento), à fortíssima influência da inteligência artificial (aproveitando, inclusive, o hype) e, talvez o ponto mais sensível, à necessidade de virar o jogo em termos de lucratividade.
E não há nada de errado nisso.
Se a estratégia arrojada da PeopleCert com o lançamento do ITIL versão 5 será bem-sucedida, só o tempo dirá. Ainda há pouco conteúdo disponível, e os materiais mais densos devem começar a aparecer ao longo do primeiro trimestre de 2026.
Até lá, resta observar com atenção.
A conferir.
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